quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Do seu sorriso

Como alguns de vocês sabem, meu irmão caçula está internado na UTI do Hospital Geral, em Guarulhos. Meu irmão não era bandido e tomou um tiro em uma fuga. Meu irmão não tinha um inimigo que lhe jurou vingança. Meu irmão não usava drogas e teve uma overdose. Meu irmão foi levar a namorada até a casa dela. E, quando estava voltando, uma lotação entrou na contra-mão em uma velocidade altíssima e o acertou de frente. O motorista da lotação estava drogado, o motorista da lotação tentou fugir sem prestar socorro, o motorista da lotação acusou meu irmão de o estar assaltando.

O motorista da lotação é um assassino.

Mas não é dele que quero falar. Ele não vale sequer meu desprezo. Toda a minha energia está direcionada ao Vinicius. Nome de poeta, alma de poeta. Meu irmão é uma pessoa amada, e não há palavra melhor pra descrevê-lo. Porque ele semeia amor onde ele passa. Não há uma alma nesse mundo que tenha algo contra o Vinicius. Ele faz amigos com um sorriso. Ele tem um coração limpo, puro. Sim, ele tem defeitos, e minha condição de irmã mais velha inclui apontá-los, criticá-los, fazer um auê por conta deles. Mas um auê maior ainda por conta de suas qualidades.

Sempre tive uma relação de amor/ódio com Deus. Na verdade, nem amor e ódio, eu diria que é uma relação de desconfiança. Será que existe mesmo um ser superior que governa nossos destinos? O Vinicius acabou indo para a mesma linha de pensamento, e passamos madrugadas a dentro filosofando sobre o sentido da vida, ele na beliche de cima, eu na de baixo. Nunca cheguei a uma conclusão, e agora Ele é o único a quem posso clamar por ajuda. Essa sensação de inutilidade me sufoca.

Eu fecho os olhos e peço. A uma energia, a Deus, ao Universo, a qualquer-coisa-que-o-valha. Peço para o meu irmão acordar. Pra acordar sem sequelas. Pra acordar e sorrir com o canto da boca, exclamando "Finalmente vocês resolveram me mimar como eu mereço!". Quero meu irmão aqui, do meu lado, sagaz, divertido e carinhoso como só ele consegue ser. Quero minha mãe sorrindo aliviada, meu pai chorando de alegria com aquele jeito melodramático mexicano, meu irmão do meio com aquele jeito arrogante de "eu já sabia". Eu quero saber. Que vai ficar tudo bem. Que o mundo vai entrar nos eixos e voltar a ser um lugar habitável novamente.

Porque sem o meu irmão, o meu amado irmão, nada faz sentido.


domingo, 18 de julho de 2010

na festa da Marcinha, lembra?

Eram tão amigas que pareciam irmãs. E por parecerem irmãs, eram até parecidas. Não só fisicamente, mas o mesmo jeito de sorrir, de dar risada, de gritar com o vizinho, enfim. O fato é que eram tão amigas que sabiam tudo uma da vida da outra. Primeiro beijo, paquerinhas do tempo da escla, raiva da mãe, primeira vez... A de uma, dentro do carro do pai do carinha, da outra, no quarto num fim de semana em que os pais tinham viajado. Eram realmente muito amigas.

Ambas se casaram em tempos muito próximos, e muitos brincavam que se espantavam por não ser com o mesmo marido. Mas nisso havia muita divergância. O de uma era alto, barba sempre feita, pasta sempre debaixo do braço. O da outra cantava em bares noturnos e teimava em andar sempre de óculos escuros, mesmo á noite. Mas todos se davam bem.

Era noite de sexta, um casal jantava na casa do outro. O outro, no caso, era o alto e a que transou no carro. Comiam pizza, bebiam vinho. O que cantava em bares noturnos contava um caso qualquer. Todos riam. E então aconteceu.

- Nossa, aconteceu algo parecido há uns 10 anos atrás, lembra? - disse a mulher do guitarrista.
- Quando? Não me lembro.... - respondeu a anfitriã.
- Como quando? Aquele dia, depois da festinha da Marcinha. Nossa, faz séculos!
- Eu não fui na festinha da Marcinha. Estava doente em casa, com febre.

O clima ficou tenso. Nunca antes havia em uma conversa um fato que ambas não partilhavam. O de barba feita pigarreou, olhou pro teto. Pressentiu a tragédia.

- Ah, é mesmo? Ah, então deixa pra lá.
- Deixa pra lá não. O que aconteceu? O que houve que você não me contou?
- Ah, nada. Eu devo estar confundindo alguma coisa. O vinho já me deixou um pouco alta.

A convidada se levantou e começou a recolher os pratos. A mulher do arrumadinho segurou o seu pulso.

- Conta. O que você me escondeu nesses anos todos?
- Não escondi nada. Foi tão insignificante que devo ter esquecido de te contar.
- Você me ligou, disse que a festa estava um saco e que você estava indo embora. Não estava no fim da festa da Marcinha.

O de óculos escuros tentou abrandar o clima.

- Ora, já faz tanto tempo, não é mesmo? Que importância isso tem?

O silêncio.

- Não há um minuto sequer da minha vida que ela não saiba. Mas parece que existe algo na vida dela que eu não sei. Estou em desvantagem.
- Desvantagem? Isso é uma competição? - responde a amiga, em tom de indignação.
- Não. Mas agora, você pode me chantagear. Porque eu não sei o que houve no fim da festa da Marcinha. Existe um momento, alguns minutos, horas talvez, entre nós.
- Você não pode estar falando sério...
- Saia da minha casa.
- O quê?!
- Saia da minha casa agora. Como posso confiar em alguém que eu não sei o que faz?
- Pelo amor de Deus, não foi nem uma hora da minha vida que você não sabe e...
- FORA! AGORA! SUA MENTIROSA!

Já dentro do carro, o de óculos escuros dirigia, a mulher, visivelmente ressentida, de braços cruzados. Ele sabia do perigo que corria, mas sua curiosidade foi maior.

- Amor... mas afinal, o que aconteceu no fim da festa da Marcinha que foi tão importante pra acabar com uma amizade de uma vida inteira?

Depois de um longo silêncio, ela respondeu.

- Esse segredo morre comigo.

domingo, 27 de junho de 2010

Hormônios

Parada na vitrine, ela olhava fixamente aquele par de sapatinhos. Não conseguia tirar os olhos deles. Eram simplesmente lindos, adoráveis, tão, tão... cor-de-rosa! Pequenininhos, quem diria que caberia um pé ali?

Deu um longo suspiro, debatendo-se na dúvida de entrar na loja ou não. Não tinha certeza de nada ainda, podia ser só impressão... e ninguém garatia que era uma menina, não é mesmo? Mas eram tão bonitinhos...

Teve de rir ao perceber a cena em que se encontrava. Parada em frente a uma loja de artigos de bebê, pensando num filho que ela não tinha. Pelo menos ainda não. A menstruação estava atrasada, ela estava tendo uns enjôos, mas isso podia ser qualquer coisa, não é? Um problema de estômago e um problema hormonal. Coincidência.

Tanto achava que era coincidência que não contou pra ninguém. Nem pra sua irmã, que era fiel de todos os seus segredos, desde que tinha, sei lá, 4 anos de idade. Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos e apertou o passo. Já passava das 5, e ela estava atrasada.

Chegou ao restaurante, sentou-se e pediu uma taça de vinho, mas trocou o pedido em 10 segundos, por um copo de água. Céus, você está mesmo acreditando que pode ser verdade? Estava.

Ele chegou. Bem vestido, sorridente, falante. Contou casos, histórias, riu. Ela tentou acompahar, dava uns sorrisos quando percebia que devia fazê-lo, mas não conseguia para de pensar: eu não quero esse cara para ser o pai dos meus filhos.

Trabalhava demais. Não teria tempo pra dar atenção ao filho ou para ajudá-la a cuidar do bebê. Bebia muito nos fins-de-semana, e não largaria o futebol aos domingos por nada. Tinha o terrível hábito de coçar o saco quando via TV, e podia passar horas jogando video game. Não era maduro, não estava preparado. E desde quando ele falava tanto? Argh, não deixava nem ela pensar. Ela nunca tinha notado como os dentes da frente dele eram meio saltado, e as orelhas, nossa, como eram GRANDES! Ele sempre ria assim, parecendo um porco?...

- Hey, voce está me ouvindo?
- O que? Desculpe...
- Eu disse que estou indo viajar daqui umas semanas. Vou fazer um projeto em Londres.
- Ah, que bom querido! E qdo volta?
- Então meu bem, daqui um ano. Parece muito, eu sei, mas eu prometo que..
- Um ano?! Mas você não estará aqui quando ele nascer!
- Ahn? Mas do que vo..
- Voce é mesmo um insensivel! Acha mesmo que seus negocios sao mais importantes do que tudo! Eu sabia! Eu vou estar aqui, abandonada, gorda, passando mal, enquanto você está em Londres! Seu cachorro, cafajente, indescente!

Ele ficou dividido entre pedir a conta, sair atrás dela ou ir correndo pra casa, enquanto pensava de que diabos ela estava falando.

sábado, 6 de março de 2010

eu não sei o que estou fazendo.

não que seja assim, do seu interesse. eu só estou lhe dizendo isso porque você não está me entendendo. fica me olhando com essa cara de interrogação, como seu eu estivesse falando grego., ai, o que que eu tô dizendo.. pra você, realmente é como se eu estivesse falando grego. bom, por isso mesmo. você não está entendendo nada do que eu estou dizendo, então posso dizer qualquer coisa.

hmmm.... sabe, as coisas nem sempre acontecem como você imaginava que elas iriam acontecer. eu não consigo areditar em sonhos, destino, sei lá... sei que a gene quer uma coisa, e quando consegue, já quer logo outra coisa... "naturalmente insatisfeita", minha mãe dizia. mas faz todo sentido, né? pq,pára e pensa... somos movidos á objetivos! a gte quer estudar, e depois quer casar, e depois ter filhos, fazer carreira e blá blá blá... e até quando você já está caquético, o objetivo é permanecer vivo o maior tempo possível, mas ele está lá, tá vendo?

era isso que eu não podia suportar. essa idéia de ficar correndo atrás de objetivos sem fim, sem propósito... objetivos iguais aos objetivos de todo mundo. ninguém entendeu muito bem, nunca entendeu... a minha suposta "criatividade desperdiçada"... não era criatividade nenhuma, eram formas de não enlouquecer.

esse mundo é uma droga, e isso me apavora, pq ele é também maravilhoso. bom, o senhor deve saber disso mais do que eu, tem toda uma pinta de turista, cara de quem já conheceu tantos lugares incríveis!... é... mas é tão foda, porque sem dinheiro não se vai a lugar nenhum, e pra ter dinheiro você tem que trabalhar, e pra conseguir um emprego bacana vc tem também que estudar, e é uma merda porque daí, não tem como você usar a porcaria do dinheiro com algo que valha a pena.

mas a humanidade continua crescendo... as pessoas vão sendo felizes... e eu continuo insatisfeita. ingrata e insatisfeita. não sei se quero ser maior do que posso, alcançar aquilo que nunca estará ao meu alcance... mas resolvi me dar uma chance.

e agora estou aqui, esperando um voô pra um lugar qualquer, carregando apenas essa mochila e conversando com um cara que não entende uma palavra do que estou dizendo.

buscando. não sei o quê ainda, e espero descobrir quando encontrar.


- E então ela se levantou, pegou sua mochila e sumiu pelo portão de embarque, sem nunca saber que compreendi cada palavra do que ela disse, e provavelmente era o que ela estava procurando.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

... e o monstro.

Sinto que morro um pouquinho, por 8 horas diárias, de segunda a sexta-feira.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Marcha Nupcial

Na porta da igreja, suas mãos suavam. Dentro do carro estava um calor infernal, e aquele vestido não ajudava, pra ser sincera. A maquiagem já borrava pelo suor em bicas. E o sol já se punha.
Olhou para o buquê, no banco ao seu lado. Lírios, como sempre disse que seriam. Grandes e brancos. Porque mesmo eram lírios? Ah, sim, pureza e alguma baboseira assim. Poderiam ser de margaridas, rosas, grama do jardim, que diferença fazia? Aquele monte de gente lá dentro da igreja, esperando ela entrar....

Respira fundo, um-dois-três. Vamos lá, não tem porquê esse nervosismo. é só um casamento. Você é só a noiva. Vai entrar, sorrir, casar e ir embora. Como tantas outras noivas já fizeram, nesta mesma igreja. Encarar a multidão, é isso aí.

E depois? Ah, depois é ir pro apartamento novo. Os móveis, escolhidos a dedo. Os presentes que ainda faltam abrir. E, com o passar dos dias, descobrir a vida a dois. Dividir contas, cama, vida.

Claro que teria que aprender a cozinhar melhor. Seus ovos mexidos e macarronadas de domingo não sustentam um marido, não é mesmo? E também aprenderia as tarefas de casa. Lavar, passar, arrumar. E tudo isso conciliando com a sua carreira. Porque a empresa precisa dela, ela que lutou tanto pra chegar onde chegou.

E depois? Depois viriam os filhos. Planejados, com amor. Crianças lindas, risonhas, que sugariam sua alma. Afinal, além de trabalhar na empresa, cozinhar, lavar, passar e arrumar, as crianças precisam de fraldas, de banho, de educação. Conferir os cadernos e o uniforme. Comprar o material escolar e os brinquedos. Atenção e carinho.

Nossa, mas o calor está insuportável.

Até aí ela já estaria mais velha. Precisava adicionar aí um tempinho pra academia. O tai-chi-chuan, pra equilibrar a mente. Economizar dinheiro para umas plásticas, afinal a gravidez deixa tudo fora do lugar. E se ficasse feia, seu marido poderia arrumar uma amante mais bonita, mais jovem, mais selvagem na cama. Sim, continuar disposta na cama, melhor comprar uns livros com algumas posições e fantasias...

Livros. É, precisaria de um tempo também pra estudar. O mercado de trabalho é muito competitivo, você tem que se atualizar, sempre. Fazer a pós, alguns cursos... quem sabe um mestrado? E tinha o cachorro. O cachorro que ele trouxe da casa da mãe. O cachorro precisa de vacina, passeio, alimento, recolher o cocô. E a mãe dele também. quer dizer, menos a vacina e o coô. Mas ela estaria lá, pra conferir se ela era uma nora à altura pro precioso filhinho dela.

E as contas que viriam, e o financiamento do carro, o convênio de saúde, a conta de telefone atrasada, o IPTU, o IPVA, a previdência privada, o condomínio, a poupança das crianças, o gerente do banco, o batizado, a internet, as cuecas sujas, o gás....









Quando o chofer abriu a porta, só havia um buquê de lírios brancos no estofado de couro, ao lado de um espaço vazio e uma poça de suor.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Monólogo em duas vozes

- Quero dizer, nada me impede, não é?

Não é. Você sabe o que te impede. Você sabe que eu te impeço.

- Não existe mais nada. Nem sequer dor. Tudo se acabou. Pra quê continuar?

Nada acabou, nada se acaba. Ainda há dor, ainda há sofrimento... porque ainda há amor. E você sabe disso.

- O mundo é injusto, essa merda de vida injusta. Nada tem sentido.

O sentido é você quem dá. Eu só forneço as coisas para que você possa dar sentido à elas.

- Vai ser um impacto só. Nem vou sentir. Vai ser rápido e indolor.

De quê adianta ser rápido e indolor se o que você quer é justificar toda essa dor?

-... ninguém vai se importar.

Bem, eu vou. E você também.

- ... eles não vão.

Ah, na verdade vão. Você sabe disso também. Só que o que você quer é que eles sintam remorso, culpa... e não compaixão. Que é o que eles terminarão por sentir, afinal.

- .. é melhor acabar logo com tudo isso.

Já disse, nada se acaba. Tudo na verdade reage. E isso também terá uma reação.

- ...

Vamos, desista. Está tarde, frio. Você não quer fazer isso.

- ... isso não vai ficar assim.

Vai, sim. E quer saber? Tudo bem! Que mal há nisso, um coração partido, algumas palavras ditas sem pensar? Eu juro que sara.

- ... você vem comigo?

Claro. Como sempre. Cuidado para não cair.






Ela desceu do parapeito, o vento ainda lhe cortando a face. Deu uma última espiadela lá embaixo, era realmente alto. Apressou o passo em direção às escadas, sem olhar para trás.

sexta-feira, 13 de março de 2009

O álcool tem um poder absoluto. Tranforma covardes em heróis, feias em modelos, tímidas em extroversões. O álcool pode te constranger, mas a sensação depoder que el causa vale o risco. Ele esclarece sua mente por algumas horas, te fazendo dizer coisas que estavam em seu subconsciente todo o tempo, e nem vc sabia. Idéias que vc rejeitava, e descobre pqla transformação prazerosa do álcool no sangue que não são tão recrimináveis assim.

Com o álcool, o mudo se tranforma em álgo muito mais divertido do quea vida real. O mundo faz até algum sentido.

Ele te proporciona a liberdade de dizer o que vc não tem coragem. Enfrentar seus própriios medos. Mesmo q vc não se lembre de nada no dia seguinte.

As pessoas bebadas sorriem o tempo todo. De dar dor na bochecha.Cantam alto, músicas bregas. E todos os invejam. Pq eles realmente estão tendo prazer em viver.

Vc fala com aquele cara que nunca teria coragem sóbria. Vc diz umas verdades praquele amigo que não se toca. Vc dança até o chão. Feliz.

É notável o álcool em mim neste post. Estou feliz, cantando músicas bregas (eu sou linda... absoluta..), fazendo meus amigos rirem de mim. Rirem comigo.

Era este o estado que eu queria para sempre. Pq eu sei que aundo eu acordar amanhã e a sensação gostosa tiver sumido, o que mais vai me incomodar não é a dor de cabeça e a sede da ressaca.

E sim, o confronto com a realidade nojenta que me cerca.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"Meu coração vai se entregar à tempestade..."
LH


Aquele trovão o pegou desprevenido. Só por isso tinha se assustado. Só. Mas também, estava admirado com aquela mudança no céu já há alguns minutos, e estava tão absorto em suas reflexões que era normal ter se assustado. Ele achava engraçado e ao mesmo tempo sentia medo daquelas nuvens O céu estava tão claro e azul á poucos minutos. Daí veio o vento. Foi o prmeiro sinal.

Ele sentiu o vento, porque o vento não se vê, a gente só sabe que venta se vê as folhas das árvores balançando ou a saia da mãe. Daí sim. Senão, tem que ser sentindo. E era um vento gelado e tão forte que ele nem viu se fez a cesta. Virou na direção do vento e grãos de poeira encheram seus olhos, ao mesmo tempo em que a bola quicava. Sua mãe mandou ele entrar: "Anda, vai cair o maior pé d´água!". Ele riu, imaginando um enorme pé de água caindo na Terra e molhando tudo, depois levantando de novo e novamente pisando na cidade.

Ele entrou e foi pra janela da sala. Era mais baixa que a do quarto, ele podia até pegar uma cadeira e sentar e olhar lá fora. Foi o que ele fez. Ele não podia ver o vento, mas via o que ele trazia: as nuvens. Elas estavam tão grandes e cinzas e pareciam pesadas. Não sabe porque pareciam pesadas, afinal, nuvem é que nem algodão, e algodão não é pesado. Mas a nuvem parecia. E elas vinham tão depressa e logo cobriram o céu azul.

Ele gostava de nuvens. Elas tinham muitos formatos se você deitasse na grama do jardim e ficasse observando atentamente. Ele imaginava os anjinhos no céu se divertindo formando aqueles leões, coelhos, pirulitos... ele tentou com o algodão, não dava certo, e ainda levou bronca da mãe por ter acabado com o algodão de tirar a maquiagem. Vai ver a nuvem tinha outra textura.

Veio o primeiro raio. Ele não gostava de raios. Mas estava tão fascinado com a pressa das nuvens cinzas. Elas não eram bonitas como as branquinhas, e pareciam furiosas.

E então vários pingos da chuva começaram a cair. Ele tinha aprendido na escola que a chuva era água das nuvens. Que depois que o sol secava a chuva, ela virava nuvem de novo. A água batia no vidro da janela com força, as nuvens cinzas estavam mesmo bravas, para jogarem água com força daquele jeito.

Ele ficou triste. Uma tristeza que veio como as nuvens cinzas no céu. De repente, num vento forte, e começaram a chover gotas tristes dentro dele.


Uma tristeza tão triste... e sem explicação.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

. Pasta II, arquivo C: datado em 26/01/2009 ás 23:21 hs .

Tudo em seu mundo era absolutamente organizado. Pensamentos eram divididos em caixas devidamente etiquetadas. A lista da rotina era afixada em local visível e pequenas alterações eram aceitas, como o cardápio do almoço e jantar. Ela não saberia viver sem prazos.

E, principalmente, pairava no ar as metas. Os objetivos. Ela fazia A para chegar no B. Sabia quando B viria. Era paciente. Mas não havia uma única ação em sua vida que não fosse calculada. Que não tivesse um propósito. Ela não saberia viver sem prazos.

Quando ele chegou, bagunçando todas as suas pastas, suas listas, suas caixas tão organizadas, ela se perdeu. Não sabia mais quando era dia, quando era noite. Porque mesmo estava fazendo B? Aonde deveria chegar? Ela não saberia viver sem prazos.

Mas ela gostava tanto dele! Mais até do que a sua caixinha etiquetada favorita. Ele era meio desorganizado, é verdade, mas que mal há nisso? Ela até que precisava de um pouco de flexibilidade. Mas ela não saberia viver sem prazos.

E quando ele pediu pra juntar o mundo dele com o dela, ela teve medo. Porque viu que no mundo dele não havia uma caixinha sequer. Nada de listas. E, o mais apavorante, nada de objetivos. Pensamentos eram jogados por todos os lados, coisas importantes misturadas com coisas sem importância, sem ordem alfabética, sem listas! E os prazos? Ela não saberia viver sem prazos.

Mas, como ela gostava muito dele, aceitou partilhar o mundo deles. Mas do jeito dela. Com cerimônia, data marcada. Objetivos. Prazos. E ele até que topou e quando começaram as mudanças, ela organizando caixas e mais caixas, e ele sentando olhando e achando graça, ela percebeu. Ela o amava, com aquele sorriso olhando pra ela. E as coisas já estavam todas mudadas. O coração dela já estava dentro de uma caixa com o nome dele! Os pensamentos ela viu que eram parecidos, colocou todos numa pasta só. E ela esperava tanto o dia em que ambos teriam um mundo único!

Mas... quando seria? Ela se desesperava, desnorteada, sem conseguir traças planos, sem saber por onde começar, quando tempo teria, como elaborar metas, como elaborar prazos?

Ele não sabia. Ele detestava prazos.